CBO, SBG e SBOP - três das maiores entidades oftalmológicas do País - alertam que o uso inadequado de corticoides pode aumentar casos de glaucoma, principal causa de cegueira irreversível no mundo, e cobram providências das autoridades para controlar o acesso indiscriminado da população a essa substância
O colírio usado para aliviar uma irritação ocular, a pomada aplicada após uma alergia ou o comprimido tomado repetidamente para conter crises respiratórias podem, quando utilizados sem acompanhamento médico, provocar glaucoma, doença que, sem controle, pode levar à perda total ou parcial da visão. O alerta é do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, da Sociedade Brasileira de Glaucoma e da Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica. Essas entidades defendem maior rigor na dispensação de medicamentos à base de corticosteroides diante do aumento de casos evitáveis de cegueira.
Diante do risco, o CBO, a SBG e a SBOP divulgam nesta quinta-feira (21) uma\ nota pública com um alerta sobre o tema. A intenção é sensibilizar gestores, políticos e a população para os riscos relacionados ao uso indiscriminado de fórmulas com corticoides. Como solução, as entidades médicas, que atuam diretamente no atendimento da saúde ocular dos brasileiros, defendem maior controle na venda de corticosteroides, com exigência de prescrição médica, rastreabilidade da dispensação e monitoramento da pressão intraocular em pacientes que utilizam essas medicações por períodos prolongados, especialmente crianças e grupos de risco.
O documento será encaminhado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ao Ministério da Saúde, ao Congresso Nacional e a entidades médicas de diferentes especialidades. A iniciativa integra as ações da campanha “24 Horas pelo Glaucoma”, que, além de conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico precoce da doença, mobiliza debates sobre o tema em espaços de formulação de políticas públicas, regulação sanitária e assistência médica.
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“O Brasil convive com uma lacuna regulatória que facilita a automedicação e o uso recorrente de medicações à base de corticoides sem acompanhamento adequado. Quando utilizadas de forma indiscriminada, essas substâncias podem aumentar a pressão intraocular e causar danos irreversíveis ao nervo óptico”, afirma Maria Auxiliadora Frazão, presidente do CBO.
SUBSTÂNCIA - Os corticoides são medicamentos usados para reduzir inflamações do organismo, por isso são utilizados em casos de irritações nos olhos, alergias, crises respiratórias, sinusites e dores inflamatórias. O alívio costuma ser rápido, o que faz com que muitas pessoas passem a reutilizar essas medicações por conta própria sempre que os sintomas reaparecem.
O problema é que, com o uso prolongado, os corticoides também podem alterar o funcionamento natural dos olhos. Eles dificultam a drenagem do líquido que circula dentro do globo ocular, fazendo com que esse líquido se acumule e aumente a pressão intraocular. Quando essa pressão permanece elevada por muito tempo, pode provocar lesões irreversíveis no nervo óptico e levar ao glaucoma.
Além das complicações oftalmológicas, o uso indiscriminado dessas substâncias também pode provocar efeitos em diferentes partes do organismo. Entre os problemas mais comuns estão aumento da glicose no sangue e descontrole do diabetes, ganho de peso, retenção de líquido, hipertensão, enfraquecimento dos ossos e maior risco de infecções e alterações hormonais.
Perigo silencioso - Estudos já demonstram que aproximadamente 30% a 40% das pessoas apresentam algum grau de elevação da pressão intraocular em resposta ao uso de corticosteroides em colírios ou pomadas oftálmicas. Embora os medicamentos orais também ofereçam risco, o problema é mais frequente no uso tópico. Histórico familiar de glaucoma, diabetes, miopia elevada, maior potência do medicamento e tempo prolongado de uso aumentam ainda mais a chance de complicações nos olhos.
Segundo Roberto Murad Vessani, presidente da SBG, o problema se tornou comum nos lares brasileiros. “Existe uma percepção equivocada de que colírios são produtos simples e sem risco. Há pacientes que utilizam esses medicamentos ao longo de anos sem acompanhamento médico, muitas vezes sem conhecer os riscos dos corticosteroides. Em muitos casos, os danos oculares só são percebidos quando parte da visão já foi comprometida de forma irreversível”, pontua.
Além do glaucoma secundário induzido por corticosteroides, o uso abusivo dessas substâncias também está associado ao desenvolvimento de catarata. O problema pode ocorrer tanto em adultos quanto em crianças, inclusive em doses terapêuticas, sendo mais frequente após uso prolongado.
Visão das crianças - O cenário é ainda mais preocupante entre crianças. Nesse grupo, o uso de corticoides pode aumentar a pressão dentro dos olhos de forma mais rápida e intensa do que em adultos, elevando o risco de danos permanentes à visão ainda na infância.
Segundo Christiane Rolim de Moura, presidente da SBOP, a recomendação é que crianças em uso de corticoides tenham a pressão ocular monitorada regularmente por um oftalmologista. O documento reforça que medidas de controle e supervisão médica são fundamentais para proteger populações mais vulneráveis, como a pediátrica.
Para a especialista, o tema deixou de ser apenas clínico e passou a representar uma discussão de saúde pública e regulação sanitária. Segundo ela, a facilidade de acesso aos corticosteroides favorece a automedicação e dificulta o acompanhamento oftalmológico necessário para prevenir complicações graves.
“A discussão não envolve restringir tratamentos importantes, mas garantir uso seguro e monitorado. São medicamentos fundamentais em várias doenças, mas que exigem acompanhamento adequado porque podem provocar consequências desastrosas quando utilizados sem controle, especialmente em crianças”, reforça.
Recomendações - Entre as principais propostas está a criação de mecanismos mais rigorosos de controle sobre a venda e a dispensação dessas medicações, com exigência de prescrição médica e sistemas de rastreabilidade para evitar a compra recorrente sem supervisão.
O documento também recomenda que médicos priorizem, sempre que possível, corticosteroides de menor potência e pelo menor tempo necessário, reduzindo a exposição prolongada aos riscos oculares. Outro ponto é o monitoramento regular da pressão ocular em pacientes que utilizam medicamentos corticosteroides por períodos prolongados.
No alerta elaborado pelas entidades, os médicos também são chamados a colaborar com esse esforço. O grupo pede a conscientização de profissionais de diferentes especialidades sobre os riscos oftalmológicos associados ao uso dessas substâncias. “Como os corticosteroides são amplamente prescritos fora da oftalmologia, é fundamental que profissionais de diferentes áreas reconheçam o risco do glaucoma e encaminhem seus pacientes, que fazem uso prolongado dessa medicação, para acompanhamento oftalmológico”, explica o presidente da SBG.
Conscientização - A divulgação da nota técnica e o debate sobre o uso indiscriminado de corticosteroides integram as ações da campanha “24 Horas pelo Glaucoma”, promovida pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia e pela Sociedade Brasileira de Glaucoma. Neste ano, a mobilização foi ampliada para todo o mês de maio, sob o conceito de “24 dias de cuidado e conscientização”, com foco na prevenção, no diagnóstico precoce e na discussão de políticas públicas voltadas ao enfrentamento do glaucoma.
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Como a perda visual causada pela doença é irreversível, o diagnóstico tardio permanece como um dos principais desafios no enfrentamento do problema. Ao longo dos anos, a campanha tem desempenhado papel importante ao ampliar a atenção da população para os riscos do glaucoma e incentivar a busca por exames nos serviços do SUS.
No Brasil, estima-se que cerca de 1,7 milhão de pessoas convivam com a doença, sendo que metade dos casos permanece sem diagnóstico devido à ausência de sintomas nas fases iniciais e às limitações de acesso a consultas oftalmológicas de rotina no SUS.
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